Sebastião Pedrosa
Gravura / Engraving

Escrita Secreta- Secret Writing1
Escrita secreta -  Secret Writing1
Secret Writing - Escrita Secreta13
Secret Writing - Escrita Secreta13
Escrita Secreta

Seja em qual for a geografia, as pictografias ou vestígios de escrita pré-histórica são encontrados ainda não decifrados para o homem da atualidade. Muito próximo de onde habito existe o impressionante complexo arqueológico conhecido como ‘Pedra do Ingá’, no estado da Paraíba, até hoje não decifrado apesar dos esforços de estudiosos como antropólogos, historiadores, arqueólogos. Exemplos vários de sítios arqueológicos estão espalhados pelos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e, sobretudo, Piauí, no Brasil. Exemplos desse tipo de escrita secreta ou não elucidada permanecem gravados em rochas encontradas por todo continente americano, do norte ao sul. Em seu impressionante livro ‘Envisioning Information’, Edward R.Tufte reproduziu dez das possíveis interpretações de ‘Dighton Writing Rock’, os quais foram realizados por exploradores europeus ao visitarem o local, no sudeste de Massachusetts no período entre 1640 e 1854. Esses desenhos foram feitos como registros das pictografias encontradas em Dighton, para facilitar a interpretação das mesmas por estudiosos europeus. Tufte usa os desenhos para demonstrar algo muito importante sobre a multiplicidade ao assinalar como diferentes desenhos produzem diversas interpretações. Tufte afirma: “um pesquisador estabeleceu triunfantemente que os signos eram escritas”. “Um distinto orientalista detectou a palavra melek (rei) na rocha. Outros pensaram que o que viam eram signos fenícios ou rúnicos. Um antiquário escandinavo traduziu os desenhos como uma espécie de viagem pré-colombiana à América liderada por ‘Thornfinn o Esperançoso’. E assim continuamente. Como afirma Tufte: “a mesma rocha, diferentes interpretações”.

A série de gravuras ‘Escrita Secreta’ que apresento aqui, são o desdobramento, embora em escala menor, das gravuras produzidas em 2002 que formaram a série “Dos Incunábulos e dos Mitos”. As gravuras atuais, um conjunto de trinta e três gravuras em metal, medindo 10cm X 10cm lidam também com marcas e signos de aparência primitiva que lembram a origem da escrita e nos deixa a pensar sobre a conquista da própria existência do homem na terra. Ao gravar a superfície de cobre me vinha à mente como o homem primitivo tomava um estilete em sua mão para registrar sobre superfícies diversas marcas que resistiram ao tempo e hoje nos causam emoção. A tábua de Uruk, a Stela da Babilônia, os hieróglifos das paredes do templo de Karnak, o Disco de Phaistos, a Pedra Rosetta, a Rochaa de Dighton, a Pedra do Ingá têm provocado as mais diversas emoções em pesquisadores e me alimentado de idéias para inventar minha escrita secreta própria. Nesta série, para identificar cada imagem me servi dos títulos que Ítalo Calvino nomeia suas ‘Cidades Invisíveis’, pois como ele, ao construir essas imagens me sentia  percorrendo geografias distantes e imagináveis, descobrindo escritas submersas em sonhos. Para Calvino, as cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra. Para mim, também, essas gravuras são escritas secretas construídas pelo desejo e prazer de ver a matéria bruta, transformada em imagens que lembram uma escrita, mesmo que aparentemente não tenha um fio condutor e seja desprovida de um código interno, sem um discurso, como um quebra-cabeça, mas sempre materializando vontades e desejos secretos ainda não totalmente decifrados para o artista.

Recife, Abril de 2003

Sebastião Pedrosa
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